Memória Vermelha: Zuleide Faria de Mello
05 de junho de 2025,
Esmeraldino Mana
Essa nota não possui a intenção de servir como uma "nota de pesar" ou uma "homenagem, pois, penso de outra forma que pode demonstrar meu respeito e admiração por uma figura como Zuleide Faria de Melo, recentemente falecida, em 29 de maio de 2025.
Meu primeiro contato com a professora da UnB fora por uma publicação, relativamente desconhecida pelo movimento comunista e socialista brasileiro: "Atualidade do Marxismo (Uma Aula)". Uma transcrição de uma aula proferida por ela na UnB, em 2003, sobre a atualidade de Marx e de suas ideias no século XXI. Suas reflexões, hilárias e precisas, tornaram esse escrito uma raridade que merece ser estudado como leitura a iniciantes as ideias de Marx, pois, Zuleide passa por praticamente todos os conceitos base da teoria marxiana: valor, mercadora, dinheiro, fetichismo, acumulação capitalista, mais-valia e exploração burguesa. Tais temas, desenvolvidos em torno de exemplos, analogias e hilariantes ironias. As reflexões que mais me tocaram fora sobre a dialética e a importância de se estudar os filósofos pré-socráticos como Heráclito e Demócrito. Este primeiro, com sua potente forma de refletir sobre o iminente movimento da vida - tudo que é está deixando de ser; e a vida é um vir-a-ser permanente. Já o segundo, como um dos primeiros filósofos da teoria atômica, e da existência da "matéria". Tais filósofos foram essencias para se desenvolver a teoria materialista - a teoria em que se busca explicar o mundo como algo que deriva de se mesmo; ou seja, oposto ao platonismo e a divisão idealista entre o plano das ideias e o plano real/material (este que não existe, segundo Platão).
Além disso, Zuleide traz impotantes reflexões acerca do mundo do trabalho, tão amplo que seria necessário utilizar páginas proporcionais a um artigo científico. Os mais importantes são: 1) A iminente exploração dos trabalhadores, em destaque do proletariado, pelas classes dominantes, sobretudo a burguesia, através do trabalho assalariado; 2) O caráter inconciliável entre os trabalhadores e dos seus patrões, pois são classes com ideologias e interesses opostos; e 3) Essa relação de exploração, durante o século XXI, vem sofrendo mudanças com a ascensão do capital especulativo sobre o produtivo, tornando as condições de vida da classe trabalhadora mais entregue aos números mutáveis em mega computadores e roletas do mercado financeiro. Todos esses três pontos não envelheceram, pelo contrário, apenas amadureceram.
Após essa leitura, pude pesquisar mais sobre sua vida, inclusive sua vida como militante comunista e seu cargo como Secretrária-Geral do Partido Comunista Brasileiro. Tal biografia apenas confirma a classificação no prefácio escrito por Frank Svensson, coordenador do livreto: "intelectual orgânico". Zuleide, no início, traz a memória de luta de Josué de Castro, médico e geógrafo pernambucano que, apesar de sua importância como teórico e cidadão brasileiro, este é esquecido da memória social do país. Resgatar a memória daqueles que lutaram contra o capital e seus tentáculos deve ser um dever dos comunistas brasileiros. Para Lenin, o primeiro dever de um comunista é: "estudar, estudar, estudar". Não apenas para conhecer a totalidade da sociabilidade capitalista, mas também resgatar e manter viva a memória dos que já se foram, e contribuem para o fim da sociedade de exploração de classes.
Por fim, proponho o exercício e dever de todos os comunistas e socialistas a leitura deste livreto de Zuleide Faria de Melo. Uma verdadeira aula sobre o quão atual a teoria marxiana e seu caráter revolucionário é diante da terra arrasada do mundo capitalista, serrando o próprio galho de sustentão, diante do colapso climático que pode por fim, não apenas à humanidade, mas também ao planeta terra. Se os trabalhadores não possuem nada a perder, e possuem um mundo a ganhar, por que não protegê-lo também? Uni-vos.
Zuleide Faria de Melo, in memoriam.
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